Projeto Pousada em Ibitipoca

A vila e a antiga pousada

Conceição do Ibitipoca é uma simpática vila em Minas Gerais cuja arquitetura é fortemente influenciada pelos bandeirantes. A maioria das casas não tem varandas ou essas se localizam ao fundo, com as janelas em madeira, sem frestas e com acabamentos simples. Isso porque os moradores, muitos de passagem, tinham na discrição uma questão de segurança e também proteção ao frio da Serra Grande (como era chamada a localidade). A pousada, no que podemos ver nas fotos antigas, tinha pouca ou nenhuma pretensão estética, tendo destaque ao seu estacionamento cercado por “casqueiros” (parte última do corte da madeira, muitas vezes descartada) que escondiam a fachada, além do telhado em amianto e madeiramento em eucalipto.

Personalidade/fazer parte

Um projeto, para ser assertivo, precisa entender o lugar e a quem ele vai atender. Nesse caso, para se pensar um empreendimento comercial, você tem que acertar na perspectiva do proprietário, que é potencializar o negócio, mas para isso deve mirar o cliente dele, no caso o hóspede, que é quem vai utilizar os espaços e, no momento da busca, escolher exatamente essa pousada e não uma outra. Para isso, é preciso compreender o perfil desse hóspede, o perfil do visitante da vila como um todo, as atrações culturais e naturais que atraem essas pessoas e, acima de tudo, a história do lugar, suas tradições e ambiente natural a qual ela está inserida. Quando se pensa em uma vila tradicional como Ibitipoca, no qual o Parque Estadual do Ibitipoca, repleto de cachoeiras, é o maior atrativo, não se pode confundir o destaque pretendido para se tornar “a escolha”, com uma ruptura estética e cultural com o lugar, pelo contrário.  Se milhares de pessoas vão a esse lugar todo ano por esses motivos, porque não incorporá-los e exaltá-los no projeto?

Memorial “indescritível” do projeto

A sensação de chegar na pousada, já no pátio, é de ser abraçado. As cores, as formas, não necessariamente se apresenta algo extremante pretensioso, pois a natureza, com suas plantas e pássaros cantantes, são os verdadeiros protagonistas.

O telhado, que não é colonial, retém o desenho e inclinação das tradicionais coberturas em cerâmica, mas são metálicos e da cor preta. O eucalipto roliço, típico em construções populares rurais, aparece nas estruturas e se mistura com as vigas metálicas. O tijolo maciço, comum nas construções da vila, aqui também aparece na versão em concreto. A cor verde-e-rosa, não por acaso escolhida, é inspirada na delicadeza do cantor/compositor Cartola e cobre a parede em emboço irregular (também característico) de parte da fachada principal.

Respeito ao tradicional, mas apresentando, também, personalidade e irreverência, sendo possível observar, em vários pontos da pousada, fachadas cobertas por grafites de diferentes artistas.

Os quartos

Os quartos tem propostas diversas, mas que completam a experiência da viagem, oferecendo interações que vão além de uma boa cama para dormir.

Em um deles, com uma parede típica de pau-a-pique e uma banheira em aço restaurada ao lado da cama, a linguagem estética é quase uma homenagem ao tradicional, sem copiar.

Em outro, com pé direito duplo, um mezanino em forma de rede é suspenso sobre a cama, podendo ser acessado por uma escada em madeira. De lá de cima, através de uma grande janela de vidro, é possível observar a serra com suas araucárias e o lindo pôr do sol de cores vívidas.

Outra possibilidade inusitada é um quarto que, através do banheiro, é possível acessar um pequeno sótão, como um esconderijo. Lá, em meio a almofadas e decoração lúdica, uma luneta está à postos em direção a janela, criando assim um inusitado observatório das estrelas.

Área comum

O projeto da pousada tem real preocupação com os detalhes. Nas áreas comuns, um corredor que dá acesso aos quartos tem sua mureta toda feita com uso de garrafas verdes (de uma conhecida marca de cerveja). Ao anoitecer, com o acender das luzes, algumas garrafas acendem, criando uma iluminação bonita e criativa, a partir desse material de reuso.

O bar da pousada, todo com chão em caquinhos coloridos, tem luminárias criativas que vão desde uma antiga bicicleta à uma antena parabólica. Um pequeno lago é parte preservada do antigo espaço, onde uma estátua serve de fonte e dá um certo ar místico ao ambiente.

Livros, quadros e enfeites todos tem apelos que recontam a história do lugar, enquanto a estátua do “manequinho” tem seu destaque como lavabo ao lado dos banheiros, virando um ponto quase que de foto obrigatória (o que é muito interessante para esse tipo de empreendimento, pois cria propaganda espontânea).

O fogão à lenha, preservado e restaurado, funciona e marca o espaço com ar rústico, enquanto a parede em tijolos aparentes ao fundo serve de mural para um neon azul com o nome do bar/pousada.

São tantas nuances que o projeto é, propositalmente, uma fábrica de pequenas sensações, onde cada pessoa tem a sensibilidade para perceber da sua forma. Por isso, talvez seja pouco útil descrever, é um espaço para ser sentido.

Técnicas sustentáveis

1. Todos os revestimentos foram: ou reaproveitados, ou ainda saldos de estoque comprados em promoção (desse jeito, algumas situações do projeto foram oportunamente criadas a partir do material)

A moldura da fonte do “manequinho” foi pensada à partir da peça cerâmica encontrada à preço de oportunidade.

A escada da entrada é feita de azulejos de diferentes tonalidades de azul adquiridos em saldos, o piso do bar é inteiro de restos e cacos da própria obra e de outras que doaram seus resíduos, assim como descartes de lojas de construção e até garimpo em aterros.

2. Toda construção foi pensada com menor intervenção possível: demolir o mínimo e evitar mudanças que exigissem reforços estruturais.

Ex: A cobertura nova é em telha sanduíche, com estrutura também metálica, sendo, assim, mais leve e possível instalar sobre a alvenaria existente.

3. O máximo de materiais de reuso e/ou soluções inventivas foram utilizados para baixar o custo e seguir uma ideia de sustentabilidade.

As luminárias são todas feitas a partir de potes, bacias, vasos e outros materiais reutilizados. Destaques:

a. A luminária central do bar, confeccionada a partir de uma antena parabólica descartada, com a lâmpadas coloridas pendentes em potes de vidro, também de reuso.

b. Uma bicicleta antiga que havia virado sucata se tornou uma luminária pendente sobre a mesa do café, tendo ela sido toda adornada com pequenas lâmpadas decorativas

c. O luminoso ao fundo do bar é nada mais que uma mangueira de Led presa minuciosamente em uma malha metálica formando as letras que escrevem o nome do bar (essa solução, em substituição ao letreiro de neon comum, saiu 90% mais barata).

Para o projeto foi construída uma fossa séptica ecológica usando manilhas de concreto (dimensionada para comportar dias de grande movimento).

Uma grande composteira recebe toda sobra de frutas e ovos do café da manhã, gerando grande quantidade de composto para o jardim.

Uma cisterna e um sistema de barris integrados foram projetados para receber e armazenar água da chuva (uma demanda importante, pois o inverno na região é muito seco). Seu armazenamento é a solução que permite a manutenção do telhado verde da pousada nos períodos de estiagem, sendo instalado um sistema de irrigação para isso.

Placas solares foram pensadas e instaladas sobre o telhado de modo a gerar energia suficiente para a pousada ser autossustentável nesse quesito.

Disposição de lixeiras para coleta seletiva recicláveis por toda pousada.

Parte da cobertura da pousada é um grande telhado verde, onde foram feitos reforços estruturais sob as telhas de fibrocimento existentes e sobre elas sobrepostas camadas que permitissem a impermeabilização. Uma fina camada de substrato permite um jardim leve, com plantas típicas da região, escolhidas através da observação do ambiente ao redor e que puderam dar, literalmente, vida ao espaço, além de conforto térmico e acústico.






                                  















- Figura 1: Fachada principal 
-Figura 2: Luminárias feitas de bacias na recepção
-Figura 3: Quarto com parede em pau-a-pique, porta em bambu e banheira em aço restaurada
-Figura 4: Quarto com rede suspensa e vista para as montanhas
-Figura 5: Corredor com mureta feita de garrafas de cerveja
-Figura 6: Luminária feita com antena parabólica e letreiro neon ao fundo
-Figura 7: Imagem do bar com estátua de "manequinho" como lavabo ao fundo
-Figura 8: Telhado verde feito sobre telhas de fibrocimento
-Figura 9: Banheiro do quarto coletivo da pousada com materiais de baixo custo e de reuso
-Figura 10: Varanda em bambu feito com técnica tradicional
-Figura 11: Barris de armazenamento de água de chuva
-Figura 12 e 13: Fotos que mostram a antiga fachada da Pousada




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