DIÁRIO DE OBRA

Um dos maiores aprendizados possíveis para um arquiteto é vivenciar a obra. Assim como em todas profissões, durante o período de estudos somos embutidos de conhecimentos teóricos e referências que nos fazem criar bases daquilo que pretendemos ser como profissionais, porém a colocação de teorias em prática são mais que necessárias. 

Ao colocar o pé na obra, entendemos não somente os detalhes construtivos e as técnicas que passaram batido nas salas de aula, mas, principalmente, as relações humanas. A hierarquia moral entre os mais experientes na obra, do mestre ao "peão", o tempo das execuções das tarefas, do almoço e do café, o orgulho merecido do trabalho bem feito e o "migué", a malandragem de um e a lealdade do outro...são muitas regras e recados não ditos.
Dessa relação, nem sempre saudável e tranquila, posso dizer que aprendi e aprendo até hoje, tendo conhecido pessoas maravilhosas, talentosíssimas e que merecem todo reconhecimento. 
É sempre um prazer parar para ouvir um mestre de obra a contar suas histórias, ver seu orgulho em contar resoluções feitas sem precisar de engenheiro ou arquiteto, muitas vezes salvando os próprios, que não sabiam o que fazer. Anônimos nos registros das obras, que ficam conhecidas por quem as assinam, esses profissionais não só são responsáveis por erguer as obras bonitas e famosas que aparecem nas revistas, mas em um país como o nosso, são eles que projetam e constroem a maioria das casas nas periferias urbanas, compondo, assim, a maior parte do que é construído, muitas vezes com uma riqueza estética que posteriormente passa a ser reproduzida/copiada pelos estudados. 
O relato aqui tem objetivo de exaltar esses profissionais, bem como estabelecer de que forma entendemos e valorizamos essa relação, embutindo isso no nosso conceito de arquitetura e do que pretendemos, também, como escritório.
Não é só sobre perguntar a opinião, mas ouvir. Perceber que a solução melhor as vezes você ainda não conhece, que potencializar a construção é trabalhar junto e dividir a glória do trabalho bem feito, do arquiteto ao servente e vice-versa. Se em outros textos citamos a importância do cliente se sentir autor da concepção da obra, vamos aqui realçar a importância de dar a todos os trabalhadores dela a notoriedade de terem a executado com excelência. 
Muitas são as histórias e pessoas que poderiam ser citadas e que, com certeza, foram responsáveis por inspirar o texto, mas tomarei a liberdade de mencionar nominalmente um Mestre de Obra que trabalhou comigo por uns 5, 6 anos. Tião.
Tião tinha algo que muito arquiteto deveria aprender e nem vou falar das suas habilidades técnicas, onde era pedreiro, marceneiro e serralheiro de mão cheia. Toda vez que ele percebia que eu não sabia alguma coisa importante na obra, ele, numa gentileza gigantesca, manobrava toda a narrativa para me fazer entender sem tripudiar da minha ignorância. Não que a ignorância para mim fosse uma vergonha, mas era nítido que ele tinha a preocupação de não constranger e sempre numa humildade que assim sobrepunha o merecido orgulho que ele tinha de toda sua bagagem. 
O aprendizado é que a hierarquia, por status ou conhecimento, não determina de onde e pra onde virão as boas ideias, muito menos de onde virão distratos e grosserias, pois a relação deve sempre ser pautada em compartilhar, sejam ideias, experiências ou reconhecimento.

Foto: Na foto temos, da esquerda para direita, Vinícius, Baú, TumTum e Tião.
As duas cachorrinhas são Jujú, deitada e Lambretinha, no colo do Tião.

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