ARQUITETURA COM CARA DE VÓ

O que é casa de vó?

Uma típica casa de vó, especialmente brasileira, é um refúgio de aconchego, memória e afeto. 

A fachada pode variar o estilo, mas sempre com personalidade e detalhes que dão assinatura. Sua fachada tem licença poética para combinar cores, assim como as flores do seu jardim.

Mobiliário clássico, confortável, talvez uma cadeira de balanço, mas de certos objetos que contam histórias, como quadros, fotos e livros. Samambaias e Espadas-de-São-Jorge na varanda ou no quintal enfeitam e protegem, nessa ordem. O clássico filtro de barro, os azulejos coloridos na cozinha, aquele cheiro de comida boa ou de bolo recém feito que já te recebe da porta. 

Tira ali, troca acolá, mas as lembranças convergem na sensação, carregada de nostalgia, de um lugar que parece andar mais devagar e cada detalhe evoca a presença amorosa de quem a habita. 

Pelo que foram substituídas?

Assim como rapidamente associamos a “casa de vó” a imagens na nossa memória, provavelmente teremos associações instantâneas ao citar “casas caixotes”. Telhados embutidos, linhas e formas retas, geralmente quadradas ou retangulares, fachadas sem adornos e cores sóbrias. Por dentro uma continuação. Painéis de madeira atrás da TV, objetos de decoração sem história associada, um livro grosso de fotografia decorando uma mesa de centro, sofás cinzas e até talvez uma planta de plástico.

Porque elas foram substituídas?

Nos subúrbios brasileiros é possível ver maravilhosas associações dessas premissas modernistas com a “brasilidade”. Os fatídicos caquinhos ou mesmo mosaicos de azulejos, se juntam a alpendres suspensos com pilares redondos e coloridos. Cobogós de diversos materiais, portas de vidro em serralherias com linhas retas, mas com cores marcantes. 

A tradução das linhas puras e simples em algo sem graça é muito mais fruto de um estilo de vida contemporâneo, em que tudo passou a ser rápido e prático, sendo nossa personalidade suprimida em necessidades que talvez não sejam as nossas.

Revisão de rumos/Casa de vó moderninha?

A chave talvez seja entender que a ideia de produtividade, de impessoalidade e objetividade que pareceu em certo momento o cenário futurístico ideal deu de cara com um fato intransponível.  Somos todos seres individuais, que tem suas personalidades moldadas por sua história, sua rede de afeto, seus gostos e necessidades, não sendo isso tudo possível suprimir se não com efeitos emocionais colaterais. 

A “nova casa de vó” não é simplesmente um apego a elementos nostálgicos. Não é você trocar seu Spotify pelo vinil, sua TV ultra 4K pela de tubo. Na verdade, até poderia, mas apenas se essa troca interferir naquilo que realmente importa, que é seu conforto, aconchego e bem-estar. Isso porque esse estado de conforto será maior à medida que o espaço criado traduzir sua identidade, seus gostos, seu apreço pelas cores, formas e texturas, o cheiro, o som, as funcionalidades.

Reviver elementos que lhe remetem memórias é um dos artifícios mais importantes, mas adequar isso a possibilidades funcionais que a tecnologia lhe permite é apenas potencializar, sem perder de vista que o sofisticado nisso tudo, o moderno, é ter um lar que seja a expressão do seu “EU” mais feliz.



- Figura 1: Imagem autoral criada com base em elementos típicos de "casa de vó"


- Figura 2: Meme sem autoria conhecida. fonte: Instagram








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